Misoginia e o medo que agora também alcança os homens

Ana Paula Lobato, autora, e Soraya Thronicke, relatora, na discussão do projeto
Fonte: Carlos Moura/Agência Senado

 Ser homem na nossa sociedade, na maioria das vezes, é ser imune, imune a qualquer consequência que envolva o ódio contra mulheres e meninas. Por outro lado, ser mulher é viver com medo todos os dias, a todo momento. Não precisaríamos de homens para nos proteger se o machismo não existisse, pois a própria necessidade de proteção nasce da violência masculina estrutural.

Crescer com medo é crescer em constante estado de alerta. É viver com a possibilidade de perder até a própria existência diante do orgulho, do ego e da “coroa” socialmente entregue aos homens cis desde cedo. Sabemos que existem diferenças históricas entre raça e classe social, mas o machismo atravessa todas elas, ainda que em intensidades diferentes.

O Brasil registrou 6.904 vítimas de feminicídio, entre casos consumados e tentados, em 2025. Os dados são do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil, elaborado pelo Lesfem da Universidade Estadual de Londrina. É um número alarmante e é importante lembrar que a violência não começa no extremo. Ela começa em um grito, em uma limitação disfarçada de cuidado, em frases como “eu faço isso porque me preocupo com você” ou “isso não é lugar de mulher”.

Nesta terça-feira, a misoginia passou a ser enquadrada como crime de preconceito ou discriminação, com pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa. A proposta foi apresentada pela deputada Soraya Thronicke como substitutivo ao projeto da senadora Ana Paula Lobato.

Soraya Thronicke apresentou relatório favorável ao PL 896/2023, de Ana Paula Lobato; 
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Para todas as vítimas, mulheres cis e trans que perderam suas vidas, sua liberdade ou sua saúde mental, essa mudança representa ao menos a possibilidade de que a justiça comece a ser construída. O ideal seria que o machismo não existisse, independentemente de punição judicial. Mas, se a punição não transforma, ela ao menos limita. E, se for preciso, que vivam de máscaras.

Essa não é apenas uma conquista do feminismo. É uma conquista de todas as pessoas que acreditam em uma sociedade mais justa e livre de violência. Ainda há um longo caminho, mas o pontapé foi dado.

Punir a violência contra a mulher é defender a vida, a dignidade e o respeito. Ser contra uma lei que tipifica a misoginia é, no mínimo, aceitar a desumanização das mulheres.

Hoje vemos homens expressando violência de gênero sem medo e influenciando novas gerações a fazer o mesmo. Os chamados red pills transformam o ódio em discurso. Ainda assim, é impossível negar que mulheres são a base da nossa sociedade e da nossa cultura, mesmo sem o devido reconhecimento.

Muitas pessoas ainda rejeitam mais a palavra feminismo do que feminicídio. Isso revela um problema profundo de formação e compreensão. Existe diferença entre feminismo, machismo, femismo e misoginia, e entender isso deveria ser básico.

O feminismo é a luta por igualdade de direitos, que na prática exige equidade para corrigir desigualdades históricas. Misoginia é o ódio às mulheres e precisa ser combatida com urgência.

Como afirmou a senadora Ana Paula Lobato, agora existe uma resposta clara do Estado brasileiro, a misoginia tem consequências.

Ainda assim, é preciso ir além. Não existe família sem respeito e família existe em muitos formatos, com úteros ou não. O que todas têm em comum é o direito de existir sem medo.


Matéria: Maria Rosa 

27/03/2026

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