Misoginia e o medo que agora também alcança os homens
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Ser homem na nossa sociedade, na maioria das vezes, é ser imune, imune a qualquer consequência que envolva o ódio contra mulheres e meninas. Por outro lado, ser mulher é viver com medo todos os dias, a todo momento. Não precisaríamos de homens para nos proteger se o machismo não existisse, pois a própria necessidade de proteção nasce da violência masculina estrutural.
Crescer com medo é crescer em constante estado de alerta. É viver com a possibilidade de perder até a própria existência diante do orgulho, do ego e da “coroa” socialmente entregue aos homens cis desde cedo. Sabemos que existem diferenças históricas entre raça e classe social, mas o machismo atravessa todas elas, ainda que em intensidades diferentes.
O Brasil registrou 6.904 vítimas de feminicídio, entre casos consumados e tentados, em 2025. Os dados são do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil, elaborado pelo Lesfem da Universidade Estadual de Londrina. É um número alarmante e é importante lembrar que a violência não começa no extremo. Ela começa em um grito, em uma limitação disfarçada de cuidado, em frases como “eu faço isso porque me preocupo com você” ou “isso não é lugar de mulher”.
Nesta terça-feira, a misoginia passou a ser enquadrada como crime de preconceito ou discriminação, com pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa. A proposta foi apresentada pela deputada Soraya Thronicke como substitutivo ao projeto da senadora Ana Paula Lobato.
Foto: Edilson Rodrigues/Agência SenadoSoraya Thronicke apresentou relatório favorável ao PL 896/2023, de Ana Paula Lobato;
Essa não é apenas uma conquista do feminismo. É uma conquista de todas as pessoas que acreditam em uma sociedade mais justa e livre de violência. Ainda há um longo caminho, mas o pontapé foi dado.
Punir a violência contra a mulher é defender a vida, a dignidade e o respeito. Ser contra uma lei que tipifica a misoginia é, no mínimo, aceitar a desumanização das mulheres.
Hoje vemos homens expressando violência de gênero sem medo e influenciando novas gerações a fazer o mesmo. Os chamados red pills transformam o ódio em discurso. Ainda assim, é impossível negar que mulheres são a base da nossa sociedade e da nossa cultura, mesmo sem o devido reconhecimento.
Muitas pessoas ainda rejeitam mais a palavra feminismo do que feminicídio. Isso revela um problema profundo de formação e compreensão. Existe diferença entre feminismo, machismo, femismo e misoginia, e entender isso deveria ser básico.
O feminismo é a luta por igualdade de direitos, que na prática exige equidade para corrigir desigualdades históricas. Misoginia é o ódio às mulheres e precisa ser combatida com urgência.
Como afirmou a senadora Ana Paula Lobato, agora existe uma resposta clara do Estado brasileiro, a misoginia tem consequências.
Ainda assim, é preciso ir além. Não existe família sem respeito e família existe em muitos formatos, com úteros ou não. O que todas têm em comum é o direito de existir sem medo.
Matéria: Maria Rosa
27/03/2026


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